UX Design nos ônibus de São Paulo: A alça

Há coisas no mundo que simplesmente nasceram erradas e são, em sua maioria, resultados de medidas paliativas para produtos mal planejados (que desde o princípio falharam em atender aos seus objetivos) ou que perderam, ao longo do tempo, sua capacidade de atender a esses objetivos por conta de mudanças no ambiente, no contexto de uso ou em qualquer fator externo.

Em ambos os casos, porém, essas ações atendem a duas premissas: têm de ser baratas e devem resolver um problema pontual (fossem completas e caras, seria mais vantajoso rever o produto inicial). Disso derivam os mais variados problemas, como ocorre com as alças implantadas já há algum tempo nos ônibus de São Paulo para diminuir o impacto causado pela superlotação e (mesmo não sendo o caso) aumentar o conforto dos passageiros.

Alça no ônibus da linha 7245, em São Paulo

Alça já bastante comum nas linhas de ônibus de São Paulo

O contexto

– Os ônibus de Sâo Paulo comportam 34 pessoas sentadas e 42 em pé (esse número varia de modelo para modelo, mas, com exceção dos ônibus articulados, não de forma significativa).

– Há 15 mil veículos para 1.300 linhas somente na região metropolitana.

55% de todas as viagens diárias em veículos motorizados são realizadas via transporte público.

– Segundo o IBGE, a população ocupada (empregada) da cidade de São Paulo, em dezembro de 2010, era de 9. 395 milhões de pessoas.

– De acordo com as estatístícas da SPTrans, então, são cerca de 5.16 milhões de pessoas pegando ônibus todos os dias.

Qualquer pessoa que tentou pegar um ônibus na Paulista ou na Barra Funda num horário de pico sabe que esses passageiros não se distribuem de forma igualitária entre as linhas e  horários.

Ou seja, estamos falando de uma quantidade absurda de pessoas que digladiam-se nos horários de pico por minúsculos espaços em um número de ônibus que, considerando-se as princpais linhas, revela-se bastante  limitado. Resultado: superlotação.

Entram aqui outros dois fatores que devem ser levados em consideração: a péssima qualidade do nosso asfalto e o trânsito, que faz com que os ônibus estejam constantemente atrasados, o que, por sua vez, faz com que os motoristas acelerem ao máximo em toda brecha que encontram realizando ultrapassagens e curvas bastante desengonçadas. Novamente apelo às experiências dos leitores: levantem as mãos aqueles que não se sentem sendo levados como um saco de batatas podres para o trabalho ou para a casa.

Com os veículos superlotados, nem todas as pessoas conseguem espaço para segurar nas barras verticais espalhados pelo ônibus e nem todas são altas o bastante para segurar com segurança nos suportes horizontais que prendem essas barras – a altura média do brasileiro adulto, segundo o IBGE, é de1,72 para os homens e 1,62 para as mulheres. Os suportes horizontais, por sua vez, estão há aproximadamentes 1,9 metros do chão.

Logo, não cair em cima de outras pessoas ou no chão torna-se uma grande preocupação dos passageiros, o que nos leva às alças.

As alças

As alças possuem 20 centímetros de comprimento e são compostas por uma tira de tecido bastante resistente, presa ao suporte horizontal por um “anel” de metal cuja altura em relação à tira não é ajustável pelos passageiros.

A tira é, também, grossa o bastante para que seja segurada de maneira relativamente confortável. As alças são disponibilizadas entre as barras verticais.

O problema

As alças não são presas, podendo-se mover em qualquer direção e, de forma ainda mais crítica, para frente ou para trás na barra horizontal (cujo espaço pode ultrapasar 80 cm entre duas barras verticais), falhando em oferecer o suporte a que se destinam. Num ônibus lotado e conduzido como se não houvesse amanhã, isso resulta em quedas e empurrões, tornando a viagem ainda mais desagradável.

O fato de sua movimentação não ser restrita gera ainda mais um problema: numa curva ou numa frenagem, toda a força que seria distribuída entre a barra de ferro e o braço do passageiro é recebida unicamente pelo passageiro, que deve se esforçar, independentemente de sua altura, idade ou porte físico, para permanecer ímóvel sendo que seu único suporte e as leis da física conspiram para o seu fracasso.

Algumas situações comuns:

A tensão em curvas que literalmente jogam o passageiro para frente...

...ou para trás. Em ambos os casos, uma situação nada agradável

Lembrando que o movimento natural de esticar o braço para diminuir a tensão sobre o pulso, neste caso, significa dar uma barrigada/bolsada na cabeça da pessoa sentada à sua frente ou empurrar a pessoa que está em pé às suas costas (dividindo um espaço de mais ou menos 80 centímetros).

É seguro presumir que a maioria das pessoas tentará evitar ao máximo incomodar ou machucar outras pessoas, forçando braços e pulsos em curvas aparentemente intermináveis.

Há ainda o perigo de ser jogado para frente ou para trás por uma freada ou acelerada abrupta do condutor. Neste caso, nem mesmo a pessoa mais forte conseguirá evitar empurrar as pessoas à sua volta até que a alça pare em uma das barras verticais. Como somos transportados com menos cuidado do que areia de construção, essa é uma situação bastante comum.

Conclusão

Como dito por Andrew Hilton:

UX btw is not the *only* valid point of view. But it's usually an essential one."

"Experiência do Usuário não é o único ponto de vista válido. Mas é, geralmente, um ponto essencial."

Não é possível pensar exclusivamente na experiência do usuário (no caso, o usuário do transporte público), mas ela precisa ser levada em consideração no design de produtos e serviços. Há, na alça, preocupações claras com o preço, manutenção (trata-se de uma peça simples, resistente e facilmente substituível) e a satisfação, ao menos aparente,  de uma demanda do público-alvo, todos pontos que concernem ao provedor do serviço. O que não houve foram preocupações com o contexto de uso e, ao meu ver, testes apropriados antes da adoção em massa da alça.

Em contrapartida e para apresentar uma solução viável ao problema, o Metrô de São Paulo continua a demonstrar suas boas intenções para com os passageiros*. A foto abaixo é de uma alça que melhora de fato as condições da viagem:

 

Não só a alça esta presa à barra (sem movimentações involuntárias para frente ou para trás) como a movimentação lateral é limitada pelo comprimento da mesma, oferecendo verdadeiro suporte ao passageiro.  O formato da alça oferece, também, mais conforto e segurança exatamente por não ser maleável como a alça de tecido.

Por enquanto esta alça é disponibilizada em apenas algun trens da linha verde do metrô (que atravessa a Avenida Paulista) e é obviamente mais cara que a alça dos ônibus,  mas sua adoção pode melhorar de forma significativa a experiência do usuário e, ao menos em parte, o dia-a-dia dos paulistanos.

*Agradecimentos à perspicaz Vivian Cosentino, que me informou das alças do metrô antes que eu passasse algumas horas tentando desenhar algo semelhante.

perspicaz

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2 respostas para UX Design nos ônibus de São Paulo: A alça

  1. Guti disse:

    Eu achei um jeito de usar essa tal alça, mas foi com alguns minutos observando a danada…e nao sei se eh mesmo o jeito certo…
    Ela possui uma peça bi concava proxima à barra… Se voce girar a alça sobre o cano, ela se encaixará perfeitamente ao cano, sendo segura pelo atrito da alça de pano que ficará entre ambas… Deu pra entender? Gira a alça por cima da barra q vc entendera…
    A parte boa eh a mobilidade que a alça ganha ao nao estar “girada”… Vc pode puxa-la e usar no lugar menks vazio… se eh q este existe…
    De qualquer forma os pontos negativos sao muitos… Ela continua balançando mto, tornando a experiencia pessima e pq nao constrangedora…
    E caso este seja mesmo o modo correto de usa-la, faltou uma explicaçao basica de uso…

    Resumindo, ruim… e com falha em 2 “modalidades” de design… de produto e sinalizaçao…a do metrô parece melhor e mais moderninha…mas ja existe?

  2. elisa volpato disse:

    A alça do trem é boa! Tem até o desenho dos dedinhos (mas sobre isso eu fico em dúvida se é bom ou não).

    Quanto às alças dos ônibus, acho que há um ponto de vista a ser considerado, ainda: o dos altos. Como todos sabem, a população brasileira está em constante ascensão vertical rumo às alturas métricas. E enquanto as alças ajudam muito quem não consegue alcançar as barras fixas, elas irritam e atrapalham quem fica com a alça balançando ali na frente do nariz (situação consideravelmente agravada pela falta de limpeza das benditas). Por isso, eu digo: é útil que as alças possam se mover de um lado para o outro.

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